A história que vou contar aconteceu com um amigo meu. Quando o conheci, na época que fomos transferidos da Amazônia para o Rio Grande do Norte, ele vindo do Amazonas e eu do Pará, ele já era “famoso” na Fundação SESP, como o “médico que escapara da selva amazônica”. Na época que chegamos ao Rio Grande do Norte fomos trabalhar em cidades diferentes, e só depois de alguns anos, quando fomos transferidos para a capital, ficamos amigos e um dia ele me contou a história como realmente aconteceu. Espero que minha memória não falhe e eu consiga transmitir aqui tudo o que ele me contou.
Ilner morava em uma cidade do Amazonas, chamada Boca do Acre. Trabalhava na Unidade Mista da Fundação SESP. Certo dia, houve um acidente na estrada próxima à cidade, em que faleceram o promotor e seu filho de 12 anos. A filha do juiz, que também viajava com eles, ficou em estado grave, e precisava ser removida para Manaus, pois o hospital local não dispunha dos recursos necessários para tratá-la. A família fretou um taxi aéreo, um avião monomotor de seis lugares, e ele foi o médico escolhido para acompanhá-la na viagem. Somente ele e o piloto, pois os quatro assentos restantes do avião foram retirados para acomodar melhor a paciente.
A viagem até Manaus foi tranquila, e eles chegaram com menos de quatro horas de vôo. Logo a paciente foi acomodada no Hospital dos Acidentados, e antes de ir para o hotel, ele passou em uma agência da VASP e comprou sua passagem de volta para o dia seguinte. À noite, porém, encontrou com o piloto, que ficou surpreso ao saber que iria retornar sozinho. “O avião foi fretado para que eu retornasse com o senhor a Boca do Acre e eu tenho a obrigação de levá-lo de volta”. Ele ainda questionou que já havia comprado a passagem, mas o piloto insistiu e ele terminou aceitando. No dia seguinte, logo cedo, cancelou a passagem que comprara e perto de meio dia foram para o aeroporto, porém, a liberação do vôo demorou e eles só decolaram já depois das 14 horas. Só depois que estavam em pleno vôo ele ficou sabendo que, para conseguir a liberação, o piloto informara que o vôo seria para Porto Velho, e não Boca do Acre, pois nesse último o aeroporto não tinha condições de pouso noturno, caso houvesse algum imprevisto. E o imprevisto aconteceu. Duas grandes tempestades fizeram com que o avião saísse da rota, e o piloto ficou perdido, desorientado, sem saber onde estava.
Já era noite e o piloto informou que iria voar mais alto, pois assim ficava mais fácil de identificar as luzes de alguma cidade. Mas tudo o que conseguiam era ver as estrelas acima deles e a escuridão lá embaixo. Depois de várias horas voando, o combustível acabando, o piloto informou que iriam cair, e deu as instruções de como se posicionar na hora da queda, o que levaria alguns minutos. Enquanto o avião planava, perdendo altura, ele se lamentava e se desculpava o tempo todo por ter feito o doutor mudar de ideia para viajar com ele. Por volta das nove horas da noite, o avião caiu.
Ilner acordou no chão, a alguns metros do avião. Os faróis ainda acesos iluminavam a selva. Tentou se levantar, mas não conseguiu, pois sentia fortes dores e ao palpar o tórax, sentiu que havia quebrado algumas costelas. Mas estava respirando bem, o que indicava que provavelmente não tinha havido perfuração pulmonar. Chamou pelo piloto, mas não houve resposta, apesar de ouvir algum barulho vindo do avião. Então resolveu dormir ali mesmo, no chão.
Quando amanheceu, com muito esforço, ele conseguiu se levantar, ainda meio tonto, segurando-se em algumas árvores. Sentiu que também sangrava pelo supercílio, mas não era um corte muito profundo. Conseguiu chegar até o avião e percebeu que o piloto estava vivo, porém semi-consciente, muito agitado e sangrando muito pelo nariz e ouvido, o que significava que tinha havido traumatismo craniano. Ele tinha alguma medicação de urgência e aplicou no piloto, porém o quadro se agravava cada vez mais. Tinha também alguns frascos de soro glicosado, e de vez em quando fazia com que ele bebesse um pouco, mas isso não adiantava muito, cada vez mais ele piorava e ia aos poucos perdendo os reflexos. Assim ele passou o domingo, e no dia seguinte, logo cedo, o piloto faleceu.
Não tendo mais o que fazer, e sentindo que não seria encontrado, pois a mata era completamente fechada e dificilmente o avião seria visto lá de cima, resolveu sair em busca de ajuda, rezando para não encontrar alguma onça, cobra ou outra fera pelo caminho. Não levavam comida no avião e ele pegou apenas sua mochila com algumas roupas e seus documentos . Sua esperança era encontrar algum rio, pois assim ficaria mais fácil de encontrar alguém. Durante vários dias caminhou na selva, com fome, pois não sabia quais as raízes de plantas eram comestíveis. Encontrou muitos açaizeiros, mas não tinha como cortar o palmito, nem como subir para cortá-los na parte de cima, por causa das costelas fraturadas. Quando sentia sede, bebia a água da chuva acumulada nas folhas das plantas. Uma certa vez, percebeu que estava andando em círculos, pois encontrou uma camisa encharcada de sangue que deixara no dia anterior, quando trocou para se livrar das mutucas que o atacaram.
No final da tarde da quinta-feira, caminhando no meio de um seringal nativo, avistou uma vala e quando se aproximou, viu que tinha uma pequena poça de água. Era um “olho d’água”!! Como já era quase noite, resolveu dormir ali mesmo. No dia seguinte, caminhou seguindo o trajeto da água, que terminou se transformando num igarapé!
Seguiu o tempo todo o igarapé, às vezes tendo que caminhar dentro da água, até que no final da tarde, teve a maior emoção da sua vida: encontrou um rio! O sol estava se pondo, e o céu estava lindo, com cores vermelho e laranja refletindo na água do rio, e aquele por do sol foi o mais lindo que ele já vira na sua vida! Rezou, agradecendo a Deus pela graça alcançada, e pedindo que aparecesse alguém para salvá-lo. Ficou ali, onde dormiu, para no dia seguinte continuar sua caminhada. Suas esperanças estavam renovadas, pois com o rio, certamente a qualquer hora ele encontraria alguém!
No sábado, caminhou o dia inteiro seguindo a margem do rio, e não encontrava ninguém! No final da tarde, cansado e fraco, pois já era o sétimo dia que estava sem se alimentar, sentou à margem do rio e rezou mais uma vez, pedindo a Deus que mandasse alguém. Já estava quase cochilando quando escutou o barulho de um motor de barco. Era um barco pequeno e ele começou a gesticular, mas o homem parecia que não ia parar. Felizmente o rio era estreito e ele conseguiu se identificar, dizendo que era médico e que tinha sofrido um acidente de avião, e que precisava de ajuda. O homem, que já estava sabendo do acidente, se aproximou e disse:
- Ainda bem que o senhor se identificou, senão eu não teria parado. Como aqui é uma área desabitada, é muito comum bandidos brigarem em outra região e virem se esconder por aqui. E sua aparência não está das melhores, com esse olho roxo e sujo de sangue, poderia muito bem ter saído de uma briga...
Ilner agradeceu e pediu ao homem que o levasse à cidade mais próxima, mas ele disse que o levaria até a casa de um seringalista, pois a cidade mais próxima ficava há vários dias de viagem de barco. Perguntou se estavam no Amazonas e ele disse que sim, e a cidade mais próxima era Carauari, e levariam mais de uma semana para chegar até lá.
Chegando à casa, foram acolhidos pelo seringalista, que já estava sabendo do acidente, porém, segundo ele, as buscas estavam sendo realizadas em outra região. Ainda demorou mais de uma semana, para que Ilner chegasse à cidade de Carauari. De lá, conseguiu se comunicar com a Coordenação Regional da Fundação SESP, pedindo que avisasse à sua família que estava vivo. Viajou no avião da TABA até Manaus, onde foi recebido pelo diretor regional do SESP e por uma infinidade de repórteres.
Somente setenta dias depois do acidente, seringueiros contratados pela empresa de táxi aéreo encontraram os destroços do avião e os restos mortais do piloto.
( Em memória de Ilner Coelho, que faleceu em 2003, vítima de um Infarto Agudo do Miocárdio)
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de maio de 2011
A Primeira Viagem - Entre o Rio e o Céu
Lá estava eu, na sala do Diretor, o papel com a autorização de viagem me queimando as mãos. Meu estágio probatório terminara há umas três semanas, e eu ainda tinha esperanças de que a Fundação SESP me deixasse mesmo em Santarém. Já tinha me apaixonado por aquela cidade, estava me adaptando bem ao trabalho no hospital, tinha vários amigos e deixara bem claro ao Diretor Regional que gostaria de permanecer ali. O que eu não sabia era que estava usando a tática errada, pois naquela época, o bom Diretor era aquele que fosse o mais carrasco e fizesse exatamente o contrário do que os funcionários desejavam. Eu deveria ter dito a ele que não queria ficar ali. Então, naquele dia, meu sonho foi por água abaixo, quando o Diretor me chamou a fim de informar que chegara a ordem para que eu viajasse no dia seguinte com destino a Itaituba. Eu nunca tinha ouvido falar nessa cidade, até chegar ao Pará, e não gostei do que ouvi a respeito dela. Cidade que crescia desordenadamente, muitos garimpos, violência explodindo na disputa pelo ouro, sem contar que o custo de vida era altíssimo!
Engoli minha desilusão, afinal, quando me dispus a trabalhar na Amazônia, estava disposta a ir a qualquer lugar. Mas, quando olhei a autorização de viagem e vi bem claro o meio de transporte – fluvial, fiquei gelada. Eu nunca tinha viajado de barco, e, apesar de ser meio aventureira, e achar o rio Tapajós lindo, não me agradava viajar à noite, num barco cheio de garimpeiros mal-educados, que se achavam os donos do mundo!! A enfermeira já me alertara, pois tinha ido de barco uma vez e de madrugada acordou com um homem querendo deitar na rede dela! (lá, as pessoas viajam em redes, nos barcos). Bati o pé e disse ao Diretor que não iria de barco, e sim de avião, mesmo que eu tivesse que pagar minha passagem. Mas ele estava irredutível. Tinha que cumprir ordens da Diretoria Regional, e a ordem era para que eu fosse de barco, e ele não poderia se responsabilizar. Esse Diretor era conhecido entre os funcionários como “o carrasco”, e uma vez, colocara falta em si próprio, por ter chegado atrasado ao trabalho, só para dar o exemplo!!
Disse a ele que ligasse para o Diretor Regional e avisasse que eu estava pedindo demissão, que voltaria para casa!! Saí de lá irritada, decepcionada, principalmente pelo fato de ter que ir embora de Santarém. É claro que eu pretendia ainda fazer muitas viagens de barco, mas não naquelas circunstâncias.
Pouco tempo depois, fui chamada novamente à sala da diretoria. O Diretor falou então que havia ligado para a Regional e que eles haviam reconsiderado o meu caso, e que eu poderia viajar de avião. Não me surpreendi, pois sabia o quanto estavam precisando de médico em Itaituba, e seria, no mínimo, falta de inteligência da parte deles, perder mais um profissional só para não mudar uma ordem de viagem!
No dia seguinte, logo cedo, meus amigos me deixaram no aeroporto, para pegar o meu primeiro vôo pela TABA (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica – ou Transportes Aéreos Bastante Arriscados – como era chamada na região). Fiquei pensando se realmente havia agido corretamente, pois viajar de TABA não era também tão seguro, já que eram freqüentes os “pequenos incidentes”. Bom, pelo menos o tempo de exposição ao perigo vai ser menor, pensei, já que o tempo de vôo é bem mais curto, cerca de uma hora de viagem, enquanto de barco, teria que viajar a noite inteira. Despedi-me dos meus amigos, e fiquei lá, esperando o avião , que vinha de Belém. O vôo estava previsto para as 7 horas, e chegou bem no horário.
Fazia mais de meia hora que o avião estava lá, parado na pista, e nada dos passageiros desembarcarem. Começamos a estranhar essa demora, quando fomos informados que estava havendo dificuldades em abrirem a porta do avião!!! Depois de muitas tentativas, conseguiram arrombar a porta e os passageiros começaram o desembarque, já suados e estressados pela demora. Passou mais meia hora, uma hora, duas, e nada de nos chamarem para o embarque. E o avião lá, parado na pista, os mecânicos tentando consertar a porta. Começou a haver um pequeno tumulto no aeroporto, pois os passageiros que iriam embarcar queriam uma explicação por aquela demora. O vôo sairia lotado, em sua maioria por garimpeiros. De mulher, só eu e uma enfermeira que não trabalhava lá, mas estava indo visitar o marido, que também estava no garimpo. E tinha outra mulher, Sandrinha, que depois soubemos ser uma cantora, que estava indo fazer um show num circo da cidade. Sandrinha fez logo sucesso entre os garimpeiros, e andava de um lado a outro do aeroporto, seguida por eles, que aos poucos, com a demora, começaram a se embriagar.
Já era mais de meio dia, e nada de consertarem o avião. A TABA nos ofereceu almoço, e a essa altura, a maioria dos passageiros já estava totalmente embriagada e de sóbrios só eu, a enfermeira e um rapaz que se juntou a nós. Sandrinha continuava lá, no meio dos garimpeiros, andando de um lado para outro, parecendo uma cadela no cio...
Finalmente, soubemos que a TABA resolvera mandar vir outro avião de Belém, e já era quase quatro horas da tarde quando finalmente, embarcamos. O sol já estava se pondo quando o avião pousou e eu pisei, pela primeira vez, no solo de Itaituba...
segunda-feira, 9 de maio de 2011
A viagem quase perfeita
Quem nunca ouviu falar na Zona Franca de Manaus? Na década de 80, legal mesmo era ir até lá e encher a mala de eletrônicos, já que no comércio normal os preços eram altíssimos! Muita gente viajava para lá exclusivamente pra fazer compras.
Quando morávamos em Monte Dourado, no Pará, eu e meu marido (hoje ex), aproveitamos um feriado de Páscoa para fazer essa tão sonhada viagem. Iríamos ter acesso a todas aquelas maravilhosas novidades que não paravam de surgir!
Na quarta-feira embarcamos num avião da TABA (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica), com destino a Santarém. Na região, a TABA era “carinhosamente” chamada de “Transportes Aéreos Bastante Arriscados”, pois era freqüente acontecerem algumas panes durante os vôos. Mas a viagem foi tranquila, e chegamos a Santarém, onde fizemos uma conexão com a VASP, para chegar até Manaus.
Os dias que passamos em Manaus foram maravilhosos. A quinta-feira foi toda dedicada ao comércio. Quantas novidades!! Aproveitamos para comprar tudo o que podíamos, dentro das nossas possibilidades econômicas. Entre as muitas bugingangas, compramos o nosso primeiro vídeo-cassete e a novidade: uma filmadora Panasonic M5, e um monte de fitas VHS!! Eu, que sempre fui apaixonada por tudo que se relacione com imagem, estava radiante!! Nem me incomodava de carregar aquele trambolhão por todos os lugares, o que eu não queria era deixar de filmar nada. Na sexta-feira, feriado, com o comércio fechado, aproveitamos para fazer um passeio de barco pelo rio Negro, com direito a paradinha para fotos com macacos e jibóias. Tudo aquilo me encantava!
No sábado, mais uma passadinha pelo comércio, para as últimas compras, e no domingo fomos encontrar minha amiga Neuly, enfermeira que trabalhou comigo em Oriximiná e que agora morava em Manaus. Foi ela que me ajudou no casamento de Raimunda, contado em outra história.
Depois do almoço, hora de voltar pra casa! Fomos para o Hotel, e com muita dificuldade, conseguimos fechar as malas, abarrotadas com as compras. Tivemos o cuidado de guardar todas as notas fiscais, pois talvez precisasse apresentar na alfândega. Já no aeroporto, comecei a ter um pressentimento de que algo iria dar errado. Na fila para o embarque, cada passageiro apertava um botão, e se a luz vermelha acendesse, era preciso abrir a mala e eles conferiam tudo, para ver se havia excesso no limite de compras. Nós não havíamos ultrapassado o limite, mas a mala estava tão abarrotada, que se tivesse que abrir, não sei se conseguiríamos fechar novamente, pois eles faziam uma verdadeira bagunça! Falei para meu marido que iria acender a luz vermelha, quando eu passasse. Ele me chamou de pessimista. Quando ele, que ia na minha frente, apertou o botão, a luz verde acendeu e respiramos aliviados. Mas, na minha vez, como eu previra, acendeu a luz vermelha, e eu gelei! Quem iria arrumar a mala novamente, no meio daquela confusão toda de aeroporto? Felizmente, quando descobriram que estávamos juntos e que era uma bagagem só, resolveram considerar a luz verde, pois ele havia apertado primeiro. Depois daquele “mini sufoco”, embarcamos no avião da VASP, com destino a Santarém, onde pernoitaríamos, e no dia seguinte retornaríamos de TABA para Monte Dourado. O sol já estava se pondo e já seria noite quando chegássemos a Santarém. Eu continuava com aquele pressentimento de que algo errado iria acontecer.
Já estávamos bem próximo de Santarém e era noite, quando o comandante anunciou que o avião não pousaria lá. Naquela tarde, caíra um temporal sobre a cidade e um raio havia queimado o sistema de iluminação da pista do aeroporto e não havia condições de pouso. O avião passaria direto para Belém, onde pernoitaríamos e no dia seguinte cedo retornaria a Santarém. Como o nosso retorno a Monte Dourado estava marcado para bem cedo, teríamos que pegar o vôo da tarde, e isso nos faria perder um dia de trabalho. Então pensei, se o pressentimento que eu tivera fosse isso, menos mal.
No dia seguinte, depois de passarmos a noite em Belém, retornamos a Santarém, e ainda deu tempo de visitarmos alguns amigos que tínhamos lá. No inicio da tarde, finalmente embarcamos num avião da TABA, com destino a Monte Dourado. Não sei dizer que tipo de avião era aquele, mas, para mim, era quase um “teco-teco”! Acho que tinha capacidade para, no máximo, uns 25 passageiros. Poltronas apertadas, e não havia divisória entre a cabine do comandante e os passageiros, por isso, nós, que sentamos nos bancos da frente, iniciamos logo uma conversa com o comandante e o co-piloto, e eles iam nos contando as aventuras que já tinham vivido na Amazônia, a bordo dos Transportes Aéreos Bastante Arriscados. Aqueles casos em que tiveram que pousar o avião “de barriga”, porque o trem de pouso não descera, ou quando um dos motores do avião parou de funcionar! Casos como esse tinham muitos, e eu escutava, enquanto admirava a paisagem lá embaixo. A tarde estava linda e a selva mais parecia um tapete verde, entrecortada por inúmeros rios, que serpenteavam por entre a mata. Eu, com minha filmadora nova na mão, não deixava escapar nada!!
O avião fez uma escala em Monte Alegre, e o comandante convidou a todos para descerem para um cafezinho!! Acho que demorou uma meia hora, para que decolássemos novamente, agora com destino a Monte Dourado. Começava uma chuva e já estava entardecendo, mas o vôo não seria tão demorado. Eu olhava para baixo e já não enxergava aquele tapete verde, apenas o cinza das nuvens, que pareciam cada vez mais pesadas, mas eu não percebia preocupação por parte dos pilotos. Não me preocupei e continuei com minha filmadora na mão, vez por outra filmando algo, mas a paisagem lá embaixo continuava a mesma. Quando já estávamos próximos de chegar em Monte Dourado, o tempo continuava feio e percebi que os pilotos já não estavam mais tão descontraídos, e não conversavam mais com os passageiros. Falavam em códigos entre si, e eu tentava entender o que eles diziam. Entre outras coisas, entendi que eles haviam perdido o contato com o aeroporto de Monte Dourado, mas, como era dia ainda, iriam pousar usando apenas a visibilidade. Então pensei, que visibilidade?? Ninguém enxergava nada lá embaixo, apenas aquelas nuvens escuras!
Finalmente começamos a avistar a cidade lá embaixo, e por incrível que pareça, não havia nuvens sobre ela. Mas, o aeroporto ficava bem fora da cidade, num planalto, e sobre ele estavam as nuvens, muitas nuvens!! Voltamos a sobrevoar a cidade e eu olhava para baixo, tentando identificar as casas, as ruas. Vi o Hospital onde trabalhávamos, o supermercado, o Banco, a pracinha, o Beiradão, o rio Jarí... De volta ao aeroporto, mais nuvens... O comandante tentou uma descida, mas o alarme disparou, avisando que havia obstáculos lá embaixo, e ele ganhou novamente altitude. Desliguei a filmadora e cruzei os dedos. Já tinha rezado umas trezentas Ave-Marias, outros tantos Pai-Nossos! Ninguém falava nada. Mais uma volta sobre a cidade e dessa vez eu vi minha rua. Mais uma vez, o rio Jarí, e dessa vez, eu quase identifiquei as pessoas a bordo dos barcos que atravessavam de um lado para outro do rio. Novamente o aeroporto, e mais uma vez, nuvens pesadas e o som do alarme disparando. A expectativa dentro do avião era grande e já questionávamos por que eles não desistiam e seguiam rumo ao próximo aeroporto, o de Macapá! Ninguém se arriscava a perguntar nada. Mais uma volta por sobre a cidade... e lá vem o rio Jarí, com suas “voadeiras” atravessando de um lado para o outro. (Voadeiras era como chamavam os pequenos barcos a motor, que serviam de “taxi”, para as pessoas atravessarem o rio, entre Monte Dourado e o Beiradão).
Depois da quinta ou sexta volta (na verdade, eu perdi as contas), percebi que o comandante falava com alguém pelo rádio. Era um piloto de um avião do Projeto Jarí, que estava em solo no aeroporto e tentava orientar o pouso. Ele informou que a cidade estava sem energia, por isso não conseguiam se comunicar com a torre de controle, e ele estava falando pelo rádio do avião. Mais uma tentativa de pouso, todo mundo de dedos cruzados, e finalmente pousamos, a salvo, no aeroporto de Monte Dourado. Respirei aliviada e enquanto descia, perguntei ao comandante por que ele não havia desistido e seguido para Macapá. E ele, com um sorriso, respondeu: “O combustível estava no fim, e na próxima volta, eu iria pousar no rio Jarí”...
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